Ivo Vargas
O futuro do Beach Soccer brasileiro em xeque: a encruzilhada de uma modalidade vitoriosa
O que está travando o futuro do Beach Soccer brasileiro?
comissão Brasileira Eu acompanho o Beach Soccer há muitos anos, não apenas como admirador da modalidade, mas como alguém que viveu momentos importantes dentro dela. Em 2005, tive a honra de me tornar o primeiro campeão gaúcho de Beach Soccer do Rio Grande do Sul, conquistando o título com a equipe 15 Amigos, de Canoas. Foi uma experiência marcante, porque naquele momento o Beach Soccer vivia um período de crescimento, visibilidade e esperança de consolidação no cenário esportivo brasileiro.
Sempre tive um grande apreço pela modalidade, principalmente porque ela abriu portas e me projetou dentro do esporte no Estado. Talvez por isso eu acompanhe com tanta preocupação o atual momento do Beach Soccer brasileiro.
Estamos falando de uma modalidade multicampeã, respeitada mundialmente e que ajudou a construir nomes históricos do esporte nacional. O Brasil carrega títulos, tradição e talento natural na areia. Mas, ao mesmo tempo, vive hoje uma fase cercada de dúvidas, conflitos políticos e dificuldades estruturais.
Recentemente, o cenário ganhou novos capítulos com a aproximação entre Mauro Carmélio — que não teve êxito em sua tentativa de chegar à vice-presidência da CBF — e o técnico Chicão Castelo Branco, um dos nomes mais conhecidos da modalidade. Chicão retorna ao Brasil após uma passagem de oito anos pelo Peru, período em que enfrentou um longo jejum de títulos.
Mais do que os personagens envolvidos, o que me chama atenção é o contexto. O Beach Soccer brasileiro parece cada vez mais preso a disputas políticas e menos focado em um planejamento sólido para o futuro da modalidade.
Hoje, olhando de fora, tenho a sensação de que ainda dependemos muito da memória das grandes gerações do passado. Claro que é impossível apagar a importância dos atletas e treinadores que construíram a história vencedora do Brasil. Eles merecem reconhecimento permanente. Porém, o esporte mudou. O mundo mudou. E o Beach Soccer também precisa mudar.
A profissionalização deixou de ser uma escolha e passou a ser uma necessidade. Falta investimento contínuo, calendário forte, valorização das competições estaduais e principalmente um projeto consistente de formação de novos atletas.
Outro ponto que me preocupa é a dificuldade da renovação. O Beach Soccer brasileiro sempre revelou talentos naturalmente, principalmente em regiões litorâneas. Mas hoje a concorrência internacional cresceu muito. Países que antes apenas admiravam o Brasil passaram a investir pesado em estrutura, metodologia e preparação física. Enquanto isso, nós ainda debatemos bastidores políticos.
Vejo muitos jovens talentosos surgindo, inclusive no Rio Grande do Sul, mas sem apoio adequado para transformar potencial em carreira. E isso acaba afastando atletas da modalidade antes mesmo de atingirem maturidade esportiva.
Talvez o maior dilema do Beach Soccer brasileiro neste momento seja justamente esse: continuar vivendo das lembranças de um passado glorioso ou aceitar que é hora de construir uma nova rota para o futuro.
O talento brasileiro continua existindo. A paixão pela areia continua viva. O que parece faltar é organização, visão de longo prazo e união em torno de um projeto maior que os interesses políticos.
Como alguém que viveu momentos importantes dentro dessa modalidade, torço sinceramente para que o Beach Soccer brasileiro reencontre seu caminho. Porque tradição sozinha não ganha mais campeonatos. O futuro exige planejamento.
Foto: equipe do 15 amigos de Canoas 1º campeão Gaucho de Beach Soccer 2005








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